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Memórias de um veterano aposentado pela tecnologia

4 days ago
2 min read

O que um veterano de guerra poderia contar que ainda fosse útil aos jovens de hoje? Já não tenho a energia nem o vigor de antes. Tenho apenas um apanhado de histórias que provavelmente soarão sem graça e sem grandes lições. Mas vou manter a cabeça erguida. Ou, pelo menos, tentar. E vou contar a vocês um pouco do que me lembro. Digamos que, quando comecei, era tudo mato.


Antes de estarmos prontos, éramos jogados no campo de batalha. Existiam ambientes sem afeto, para onde jovens eram mandados a terminar a formação — mesmo sem ter crescido o suficiente. Nossos superiores, que estiveram em guerras ainda piores, nos jogavam à luta acreditando que era o melhor para nós. Assim me formei o herói de uma geração.


Possuo mais de 40 anos de serviços* bem prestados**. Fui desarmado e desprotegido a lugares que o guerreiro de hoje nem sonharia ir. Temi pela minha integridade. Nós não tínhamos insalubridade e nem adicional de periculosidade. Muito menos tadalafila. Nós tínhamos  a juventude e nada mais.


E fiz tudo isso porque cresci com homens me dizendo que eu tinha uma missão a cumprir. Que eu era especial. Que a sociedade dependia de mim. E assim me atirei aos perigos sem saber se voltaria para casa. Encarei chuva, conheci odores dos mais diversos, me perdi em becos escuros, combati o bom combate... tudo por amor a uma causa.


E hoje em dia como me encontro? Não direi que estou aposentado, prefiro dizer que estou numa fase menos ativa. E tudo isso porque a tecnologia, comemorada por aqueles que não têm respeito às tradições, chegou ao meu campo de batalha. Hoje em dia, a arte que levamos toda uma vida para aprender, é realizada por um objeto frio, sem graça e comprado em 3 vezes no cartão. É a morte do romantismo e do épico. E esse assassinato ainda pode ser cometido em até doze velocidades!!


O leitor entende minha indignação. É bastante duro acumular tamanhas experiências e ser compulsoriamente aposentado. Minhas contribuições deveriam falar por mim. As máquinas podem ser um avanço. Não nego. São mais eficientes, mais modernas e não sofrem com as limitações que nós, da velha guarda, conhecemos tão bem. Mas elas não têm história. Não têm memória. Não têm as cicatrizes das guerras.


E nem o penteado.


Análise da crônica:

Uma crônica divertida, com esse narrador que olha para si mesmo e traz consigo outro ponto de vista. Com uma boa dose de autoironia e metáforas que funcionam sem parecer que estão ali para provar alguma coisa, o texto tem humor, tem leveza, tem ritmo e entrega o que promete, enquanto se conecta pela via da diversão com essa crise da masculinidade, tão típica do nosso tempo.

 
 
 

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