Chinelos
Entre os vestígios das mortes do meu irmão e do meu pai, estão dois pés de chinelos. No caso do meu irmão, guardo o relato do vigia de uma obra próxima, aparentemente a única testemunha do seu assassinato. Após os tiros que mataram o Gui, os assaltantes correram em direção ao mar, protegidos pela escuridão da parte mais afastada da praia. Mas o vigia chegou a ver que um deles deixou um pé de chinelo para trás, na areia.
Fico imaginando esse assaltante, depois de chegar em um local seguro, contrariado por ter encontrado apenas escova de dente, fio dental e pasta de dente na necessaire que conseguiu roubar do meu irmão. Andando parcialmente descalço, com um dos pés sujo, enquanto meu irmão perdia a vida na mesma areia onde ele, em fuga, havia deixado o chinelo.
Duas semanas após a morte do meu irmão, iria com meu pai a uma consulta com um neurologista. Quando abri a porta do seu quarto, logo de manhã, ele estava no chão, em convulsão. Eram as metástases em ação. Foi uma cena de horror vê-lo com os olhos arregalados, babando, movimentando-se freneticamente. Não sabia quanto tempo ele estava ali, cheguei a ficar alguns segundos paralisada. Mas o sentido de urgência fez com que eu conseguisse pegar o telefone e ligar para a ambulância.
Aqueles longos minutos de espera me deram a maior sensação de tempo dilatado que eu já tive. Eu alternava entre falar palavras de carinho, passando a mão na cabeça do meu pai, ainda em convulsão, e correr até a janela para ver se a ambulância finalmente havia chegado. Meu pai foi levado em uma maca improvisada com o lençol da sua cama. E durante essa movimentação de fuga para o hospital, um dos chinelos ficou para trás, na portaria do prédio.
Quando voltei para pegar algumas roupas do meu pai, já estabilizado, encontrei o pé de chinelo na porta do nosso apartamento. Era um chinelo muito confortável, com as tiras verde água. Levei o pé que faltava para o hospital. Enquanto meu pai ainda conseguia sair da cama, eu colocava, pacientemente, os chinelos em seus pés.
Outro dia, durante uma caminhada, a tira de um dos meus chinelos se soltou. Voltei para casa com um dos pés descalços e a lembrança daqueles episódios. Não sei por que, mas decidi guardar o pé de chinelo que ainda estava inteiro.
Análise da crônica:
Uma crônica sem afetação e nem desejo de soar poética demais, mas que emociona pela maneira como conecta três acontecimentos a partir da simbologia de um objeto banal.
É um texto seco, duro, mas que deixa transparecer a mensagem de alguém que elaborou muito as próprias perdas e conseguiu encontrar alguma poesia no meio da crueza e da dor disso tudo.

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