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Fuga Furada

Arriei as calças. Ela era maravilhosa e sentava com sede de prazer.


Meu celular tocou. Pausei o vídeo e limpei a mão.


Lembrei que tinha marcado de encontrar meu irmão. Retornei a ligação e avisei que iria até o bar.


Mais tarde, a gente já tava bêbado, e o cigarro apagava na sua mão.

“Mano... as pessoas olham pra ele com dó” – ele falava do nosso pai.

“O que você queria que elas fizessem?”

“Sei lá... Foda-se! Ele odeia, fica com raiva, você sabe como ele é. Na hora, todo mundo

quer pagar de gente boa, só que ele odeia hipocrisia...”

“Você tá aqui porque você quis” – encurtei.

“Eu larguei tudo para vir cuidar dele” – foi sua última frase antes de sair do bar, pra não me dar um merecido tapa na cara.


O “tudo” era seu apartamento em outra cidade, que eu bancava, e sua rotina, que meus pais bancavam.


E agora, depois da terceira cirurgia do velho, o Glioblastoma multiforme selvagem tinha deixado de ser só um nome grande e assustador.


Então, eu me refugiava no trabalho e na punheta, enquanto meu irmão vivia aquela realidade confusa, como no dia em que meu pai queria deitar no chão do banheiro, bem no pé da privada, ao invés de ir pra cama, porque não sabia o que era o quê.


Às vezes o velho ficava com muita raiva. Não sentia honra nenhuma em morrer, só revolta… “por que eu, e não outro?”


No caminho, percebi um pneu furado e parei o carro numa rua lateral. 

“Irmão, fudeu! Me ajuda?” – liguei.


Ele parecia lidar com a morte (e com pneus) muito melhor do que eu.


Afinal, todo mundo sabe que vai morrer. Mas tive que me enfurnar mais de oito horas diárias no escritório pra descobrir que só não quero morrer porque tenho boletos pra pagar.


Graças a Deus, logo chegou meu irmão, de dois metros, num carro tão pequeno que dava pra ver seus joelhos aparecendo na janela. Esse era o cara que ia me salvar da minha incompetência masculina.


Longe dali, em algum lugar, os olhos do nosso pai continuavam fechados. Os nossos olhavam para o estepe.


“E aí, pra onde vamos?” – perguntou.

“Não sei...”

“Tanto faz. Mas você paga minha gasolina!”


Análise da crônica:

O texto é construído de um jeito que deixa a gente querendo saber o que vem depois. Gosto de como a relação com o irmão é uma mistura de codependência e afeto… Tem uma coisa de filme cult, de homens sem letramento afetivo tentando conviver, espelhando também a figura paterna. E a imagem do cara tão grande a ponto de o joelho aparecer na janela do carro ficou na minha cabeça (é com esse tipo de coisa, tão específica e inesperada, que um texto ganha a gente).


 
 
 

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