Casa velha, casa nova
Estamos na Casa Velha, tenho 8 anos, sinto o chão de madeira. Nesta casa de pintura rosa, minha infância começou e minha inocência entrou na UTI. A brincadeira, agora com minha mãe grávida pela terceira vez, estava definhando. Tempos de afetos escassos. Meus pais estavam muito comprometidos com a mudança para a tão sonhada (por eles) Casa Nova. Acreditei que lá realmente pegaríamos os pães com uma vara de pescar, direto do mercado no térreo. Eu ainda acreditava naquela época. Não tinha medo dos homens; só a caminhada debaixo do sol até a quitanda me incomodava. Na Casa Nova, se o bebê fosse menino, eu teria um quarto só para mim — esperança de uma menina muito sensível. Se fosse menina, demoraria algumas décadas para eu ter um espaço só meu. Nasceu a V.
Na idade adulta eu vagaria muito, tentaria habitar umas vinte “casas” procurando um canto só meu, com tons de terra rosada, com cheiro de lar, com alguma árvore por perto, como o chorão cujos galhos viravam varinhas mágicas. Um local onde seria possível soltar a respiração. Procurei em homens também, tolinha.
Não escolhi a decoração do nosso quarto na Casa N.; minha mãe escolheu. Minha mãe sempre escolheu tudo. Tinha até uma escrivaninha para os estudos, para eu ser alguém — mas alguém importante.
Na Casa V., morava no porão e parecia bruxa a dona Rosita, que sempre mascava chicletes e nos dava doces. Talvez medisse a grossura do nosso dedo, mas disso não me lembro. Tinha o Bolinha e outros anjos caninos; gatos não, nunca: “eles não obedecem”, dizia meu pai. Tinha a horta e um macaco que fugiu da jaula. Sim, um macaco, imagina isso, 1984. Eu devia ter pegado a dica e fugido também. O IBAMA tinha que ir lá em casa; “era uma casa muito engraçada” e cheia de crimes. Vi muito meu irmão apanhar. Lembro da cena: aquele corpinho branco, magro, com ossos aparecendo, dependurado por um braço, parecendo uma rã. Minha mandíbula cerra agora, gosto azedo na boca. Mas naquela cena eu estou quietinha, fingindo-me de morta. Os desmaios eram frequentes na minha família. Fingir-se de morto é o modus operandi desta família até hoje: todos vivos-mortos.
Volta, volta, volta para o último Natal na Casa V. Ganhei a “última boneca”, o Meu Bebê, da Estrela! Tão sonhado, tão querido, tão chantageado que eu já nem queria mais, estava exausta. Lembro-me do pacote grande de presente, que era... para... era para... será? Para a Dani! Pronto, agora eu era adulta e tinha até outro bebê, que já caminhava, para cuidar.
Enfim, chegou o dia da mudança, vamos para a Casa Nova. Os anjos desapareceram. O escuro dos corredores e o frio daquela casa me perseguem até hoje. Mas tinha a decoração dourada brega dos anos 80 que minha mãe queria, os periquitos na gaiola e minha cama toda rosada, onde a ansiedade fez ninho e vingou.
Mas volta, volta! Se eu ainda não fui deserdada, a Casa V., hoje nada engraçada e bem velha, será minha. Sim. Vou colocá-la abaixo.
Análise da crônica:
Muito bem escrito, o texto se constrói com um ótimo ritmo e uma beleza que vem de detalhes bem específicos, o que é sempre uma ótima forma de escrever fugindo de clichês. Por meio de cenas e imagens, a gente sente que essa história é única e só poderia ter sido escrita por essa autora, ao mesmo tempo em que nos conectamos e nos identificamos, porque tudo soa profundamente verdadeiro.

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