- Mariana Noguera
- Jul 11
Quando fiz 9 anos, meu pai me levou a um ortodontista para ver meus dentes que tinham nascido uns sobre os outros, porque, dizia minha mãe, eu nasci quase sem boca. Ali, descobri que minha cara era assimétrica. Mandíbula grande, maxilar pequeno e um deslocamento de eixo de meio centímetro. Parece pouco, e é, mas ali começou uma corrida para minimizar danos até que eu completasse 18 anos e pudesse fazer uma cirurgia que iria quebrar tudo e colocar no lugar que deveria estar.
Meu pai, apavorado com a tal cirurgia, começou uma jornada por ortodontistas até achar um professor da USP que dizia ter a solução: aparelhos que eu usei para puxar o maxilar, segurar a mandíbula e colocar tudo no eixo. Passei anos adolescentes usando aquelas aberrações, que deram quase certo. O que não contaram foi que, ao mexer tanto em ossos e dentes, para conseguir comer, eu acabei usando mais um lado do que o outro da boca para mastigar e fiquei com a cara torta do mesmo jeito. Isso porque a musculatura do rosto ficou mais forte do lado que era mais usado. Até minhas sobrancelhas ficaram tortas.
Tudo normal, não fosse eu quem sou.
Quando eu tinha uns 17 anos, saiu uma reportagem no Fantástico explicando que a Carolina Dieckman era tão bonita porque a cara dela era totalmente simétrica. Isso aconteceu quando ela fazia uma novela em que o irmão dela era meu primo, lindo e simétrico. Eu que já estava há anos ouvindo que minha cara era torta, andava com esse primo lindo simétrico na rua e me sentia ainda mais assimétrica.
Nessa mesma época comecei a faculdade de design e trabalhei por anos como designer e fotógrafa. Se eu tivesse feito administração, não teria passado por tanta agitação mental a respeito da minha cara torta, mas um designer/fotógrafo só entrega assimetria se for proposital, seguindo a proporção áurea que torna a assimetria esteticamente atraente por meio de uma técnica que induz o olhar ao ponto de interesse através de uma espiral imaginária. Pra piorar, aos 30 fui estudar arquitetura. Arquitetos enxergam assimetria em milímetros, o que fazia com que minha cara torta (imperceptível aos olhos de advogados) parecesse ainda mais assimétrica.
Aos 39, veio a tal cirurgia, as cinco cirurgias. Tenho 9 placas e 28 parafusos segurando minha cara, que ficou quase simétrica, não fossem as sobrancelhas.
Mas, na semana passada, aos 52, fui fazer botox e a médica alinhou as ditas. Assim, como se nada fosse, me vejo hoje mais simétrica do que nunca. Uma epopeia estética de quase 50 anos.
Análise da crônica:
Adorei esse texto. Você é pego desde o começo porque tem humor e as informações necessárias para fisgar o leitor. Bem escrito, a história do primo e da Carolina Dickman são engraçadas. É um texto maduro e com um olhar de um cinismo refinado. Gostei bastante.
