O mato. O cricri dos grilos. O frio que começa a cair quando o sol vai embora. A luz que cai devagar, como se o mundo estivesse sendo coberto por um véu escuro. É nesse horário, diante desse cenário que, às vezes, volto para a casa da minha avó.
Lembro de um fim de tarde específico. Eu havia visto o Zé bater em seus filhos, Michele e Cassiano. Eu havia ido brincar com eles no pé de jambo bem na hora da reza. A violência ficou em mim. A maneira como ele simplesmente pegou os meninos desprevenidos e bateu. Sem aviso. Sem tempo para defesa. Aquilo me abalou de um jeito que eu não compreendia.
Depois fui para a casa da minha avó. Sentei do lado de fora da área e chorei. Chorava, parava e lembrava de novo. Então chorava outra vez. A imagem de Michele apanhando voltava sem parar. Eu achava aquele homem ruim. Como alguém podia bater daquele jeito nos próprios filhos?
Enquanto chorava por aquela cena, talvez chorasse também por outras coisas. Minha mãe estava na minha casa, mas eu sentia sua falta, sentia a distância. A distância de mim. E aquela distância tinha o mesmo gosto da tristeza que chegava com a noite.
Na casa da minha avó paterna eu também carregava uma sensação difícil de explicar. A sensação de não ser muito querido. Nas vezes em que eu dormia lá, de vez em quando, à noite, já na cama, eu ouvia as conversas vindas da cozinha. Minha avó comentava sobre a minha sem-modeza, sobre o meu enjuamento. “Um enjuamento que Nossa Senhora...”
Eu fingia dormir.
Tinha a impressão de estar sendo julgado o tempo todo. Por ela e por meus tios. Como se existisse um lado deles e outro lado nosso. Deles contra mim. Deles contra minha mãe. Hoje penso que foi um dos lugares onde menos me senti querido na infância.
Minha avó era, como eu posso dizer...humana. Coçava as canelas sem parar. Parecia carregar antigas insatisfações. Tinha antipatia da minha avó materna. Tinha antipatia da minha mãe. Tinha antipatia do próprio marido. Havia nela uma espécie de dureza que eu percebia mesmo sem compreender.
Mas havia outra coisa também.
Foi essa mesma mulher que me defendeu da violência do próprio filho. Foi essa mesma mulher que se revoltou quando minha mãe insistiu em me bater por eu resistir a ir para a excola. “Tá doida de ficar judiando do menino? Pra que ficar judiando do menino?” Lembro dela dizendo isso. Depois tentou negociar comigo. Fez uma proposta: se eu fosse para a escola, ganharia um chinelo novo.
Eu resisti um pouco. Então apresentei minhas condições. O chinelo precisava ser de alça de pano. Aqueles da Beira Rio que, quando molhados, falavam sozinhos, nhec nhec do banheiro pro quarto, do quarto pra cozinha...
Não lembro se ela riu da exigência. Mas me lembro do chinelo. E do acordo. Talvez porque, naquele momento, em vez de bater, ela tenha feito um combinado comigo.
E quando a tarde chega e os grilos começam a cantar, é curioso que eu me lembre justamente disso: da mesma avó que me fazia sentir julgado sendo, também, a pessoa que às vezes me defendia do mundo.
Análise da crônica:
Gostei muito desse texto. Ela mistura fragmentos de memória de uma forma não linear, e é preciso talento e sensibilidade para não afastar o leitor — a autora tem esse talento e essa sensibilidade. Parece um começo de romance, mais do que uma crônica, mas, por dar vontade de seguir lendo, eu achei muito válido. As condições apresentadas, um chinelo específico, a descrição deste chinelo, isso é ótimo pra um texto.
