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Crônicas

O que um veterano de guerra poderia contar que ainda fosse útil aos jovens de hoje? Já não tenho a energia nem o vigor de antes. Tenho apenas um apanhado de histórias que provavelmente soarão sem graça e sem grandes lições. Mas vou manter a cabeça erguida. Ou, pelo menos, tentar. E vou contar a vocês um pouco do que me lembro. Digamos que, quando comecei, era tudo mato.


Antes de estarmos prontos, éramos jogados no campo de batalha. Existiam ambientes sem afeto, para onde jovens eram mandados a terminar a formação — mesmo sem ter crescido o suficiente. Nossos superiores, que estiveram em guerras ainda piores, nos jogavam à luta acreditando que era o melhor para nós. Assim me formei o herói de uma geração.


Possuo mais de 40 anos de serviços* bem prestados**. Fui desarmado e desprotegido a lugares que o guerreiro de hoje nem sonharia ir. Temi pela minha integridade. Nós não tínhamos insalubridade e nem adicional de periculosidade. Muito menos tadalafila. Nós tínhamos  a juventude e nada mais.


E fiz tudo isso porque cresci com homens me dizendo que eu tinha uma missão a cumprir. Que eu era especial. Que a sociedade dependia de mim. E assim me atirei aos perigos sem saber se voltaria para casa. Encarei chuva, conheci odores dos mais diversos, me perdi em becos escuros, combati o bom combate... tudo por amor a uma causa.


E hoje em dia como me encontro? Não direi que estou aposentado, prefiro dizer que estou numa fase menos ativa. E tudo isso porque a tecnologia, comemorada por aqueles que não têm respeito às tradições, chegou ao meu campo de batalha. Hoje em dia, a arte que levamos toda uma vida para aprender, é realizada por um objeto frio, sem graça e comprado em 3 vezes no cartão. É a morte do romantismo e do épico. E esse assassinato ainda pode ser cometido em até doze velocidades!!


O leitor entende minha indignação. É bastante duro acumular tamanhas experiências e ser compulsoriamente aposentado. Minhas contribuições deveriam falar por mim. As máquinas podem ser um avanço. Não nego. São mais eficientes, mais modernas e não sofrem com as limitações que nós, da velha guarda, conhecemos tão bem. Mas elas não têm história. Não têm memória. Não têm as cicatrizes das guerras.


E nem o penteado.


Análise da crônica:

Uma crônica divertida, com esse narrador que olha para si mesmo e traz consigo outro ponto de vista. Com uma boa dose de autoironia e metáforas que funcionam sem parecer que estão ali para provar alguma coisa, o texto tem humor, tem leveza, tem ritmo e entrega o que promete, enquanto se conecta pela via da diversão com essa crise da masculinidade, tão típica do nosso tempo.

Arriei as calças. Ela era maravilhosa e sentava com sede de prazer.


Meu celular tocou. Pausei o vídeo e limpei a mão.


Lembrei que tinha marcado de encontrar meu irmão. Retornei a ligação e avisei que iria até o bar.


Mais tarde, a gente já tava bêbado, e o cigarro apagava na sua mão.

“Mano... as pessoas olham pra ele com dó” – ele falava do nosso pai.

“O que você queria que elas fizessem?”

“Sei lá... Foda-se! Ele odeia, fica com raiva, você sabe como ele é. Na hora, todo mundo

quer pagar de gente boa, só que ele odeia hipocrisia...”

“Você tá aqui porque você quis” – encurtei.

“Eu larguei tudo para vir cuidar dele” – foi sua última frase antes de sair do bar, pra não me dar um merecido tapa na cara.


O “tudo” era seu apartamento em outra cidade, que eu bancava, e sua rotina, que meus pais bancavam.


E agora, depois da terceira cirurgia do velho, o Glioblastoma multiforme selvagem tinha deixado de ser só um nome grande e assustador.


Então, eu me refugiava no trabalho e na punheta, enquanto meu irmão vivia aquela realidade confusa, como no dia em que meu pai queria deitar no chão do banheiro, bem no pé da privada, ao invés de ir pra cama, porque não sabia o que era o quê.


Às vezes o velho ficava com muita raiva. Não sentia honra nenhuma em morrer, só revolta… “por que eu, e não outro?”


No caminho, percebi um pneu furado e parei o carro numa rua lateral. 

“Irmão, fudeu! Me ajuda?” – liguei.


Ele parecia lidar com a morte (e com pneus) muito melhor do que eu.


Afinal, todo mundo sabe que vai morrer. Mas tive que me enfurnar mais de oito horas diárias no escritório pra descobrir que só não quero morrer porque tenho boletos pra pagar.


Graças a Deus, logo chegou meu irmão, de dois metros, num carro tão pequeno que dava pra ver seus joelhos aparecendo na janela. Esse era o cara que ia me salvar da minha incompetência masculina.


Longe dali, em algum lugar, os olhos do nosso pai continuavam fechados. Os nossos olhavam para o estepe.


“E aí, pra onde vamos?” – perguntou.

“Não sei...”

“Tanto faz. Mas você paga minha gasolina!”


Análise da crônica:

O texto é construído de um jeito que deixa a gente querendo saber o que vem depois. Gosto de como a relação com o irmão é uma mistura de codependência e afeto… Tem uma coisa de filme cult, de homens sem letramento afetivo tentando conviver, espelhando também a figura paterna. E a imagem do cara tão grande a ponto de o joelho aparecer na janela do carro ficou na minha cabeça (é com esse tipo de coisa, tão específica e inesperada, que um texto ganha a gente).


Entre os vestígios das mortes do meu irmão e do meu pai, estão dois pés de chinelos. No caso do meu irmão, guardo o relato do vigia de uma obra próxima, aparentemente a única testemunha do seu assassinato. Após os tiros que mataram o Gui, os assaltantes correram em direção ao mar, protegidos pela escuridão da parte mais afastada da praia. Mas o vigia chegou a ver que um deles deixou um pé de chinelo para trás, na areia.


Fico imaginando esse assaltante, depois de chegar em um local seguro, contrariado por ter encontrado apenas escova de dente, fio dental e pasta de dente na necessaire que conseguiu roubar do meu irmão. Andando parcialmente descalço, com um dos pés sujo, enquanto meu irmão perdia a vida na mesma areia onde ele, em fuga, havia deixado o chinelo.


Duas semanas após a morte do meu irmão, iria com meu pai a uma consulta com um neurologista. Quando abri a porta do seu quarto, logo de manhã, ele estava no chão, em convulsão. Eram as metástases em ação. Foi uma cena de horror vê-lo com os olhos arregalados, babando, movimentando-se freneticamente. Não sabia quanto tempo ele estava ali, cheguei a ficar alguns segundos paralisada. Mas o sentido de urgência fez com que eu conseguisse pegar o telefone e ligar para a ambulância.


Aqueles longos minutos de espera me deram a maior sensação de tempo dilatado que eu já tive. Eu alternava entre falar palavras de carinho, passando a mão na cabeça do meu pai, ainda em convulsão, e correr até a janela para ver se a ambulância finalmente havia chegado. Meu pai foi levado em uma maca improvisada com o lençol da sua cama. E durante essa movimentação de fuga para o hospital, um dos chinelos ficou para trás, na portaria do prédio.


Quando voltei para pegar algumas roupas do meu pai, já estabilizado, encontrei o pé de chinelo na porta do nosso apartamento. Era um chinelo muito confortável, com as tiras verde água. Levei o pé que faltava para o hospital. Enquanto meu pai ainda conseguia sair da cama, eu colocava, pacientemente, os chinelos em seus pés.


Outro dia, durante uma caminhada, a tira de um dos meus chinelos se soltou. Voltei para casa com um dos pés descalços e a lembrança daqueles episódios. Não sei por que, mas decidi guardar o pé de chinelo que ainda estava inteiro.


Análise da crônica: 

Uma crônica sem afetação e nem desejo de soar poética demais, mas que emociona pela maneira como conecta três acontecimentos a partir da simbologia de um objeto banal.

É um texto seco, duro, mas que deixa transparecer a mensagem de alguém que elaborou muito as próprias perdas e conseguiu encontrar alguma poesia no meio da crueza e da dor disso tudo.


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