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Crônicas

Quando fiz 9 anos, meu pai me levou a um ortodontista para ver meus dentes que tinham nascido uns sobre os outros, porque, dizia minha mãe, eu nasci quase sem boca. Ali, descobri que minha cara era assimétrica. Mandíbula grande, maxilar pequeno e um deslocamento de eixo de meio centímetro. Parece pouco, e é, mas ali começou uma corrida para minimizar danos até que eu completasse 18 anos e pudesse fazer uma cirurgia que iria quebrar tudo e colocar no lugar que deveria estar.


Meu pai, apavorado com a tal cirurgia, começou uma jornada por ortodontistas até achar um professor da USP que dizia ter a solução: aparelhos que eu usei para puxar o maxilar, segurar a mandíbula e colocar tudo no eixo. Passei anos adolescentes usando aquelas aberrações, que deram quase certo. O que não contaram foi que, ao mexer tanto em ossos e dentes, para conseguir comer, eu acabei usando mais um lado do que o outro da boca para mastigar e fiquei com a cara torta do mesmo jeito. Isso porque a musculatura do rosto ficou mais forte do lado que era mais usado. Até minhas sobrancelhas ficaram tortas.


Tudo normal, não fosse eu quem sou.


Quando eu tinha uns 17 anos, saiu uma reportagem no Fantástico explicando que a Carolina Dieckman era tão bonita porque a cara dela era totalmente simétrica. Isso aconteceu quando ela fazia uma novela em que o irmão dela era meu primo, lindo e simétrico. Eu que já estava há anos ouvindo que minha cara era torta, andava com esse primo lindo simétrico na rua e me sentia ainda mais assimétrica.


Nessa mesma época comecei a faculdade de design e trabalhei por anos como designer e fotógrafa. Se eu tivesse feito administração, não teria passado por tanta agitação mental a respeito da minha cara torta, mas um designer/fotógrafo só entrega assimetria se for proposital, seguindo a proporção áurea que torna a assimetria esteticamente atraente por meio de uma técnica que induz o olhar ao ponto de interesse através de uma espiral imaginária. Pra piorar, aos 30 fui estudar arquitetura. Arquitetos enxergam assimetria em milímetros, o que fazia com que minha cara torta (imperceptível aos olhos de advogados) parecesse ainda mais assimétrica.


Aos 39, veio a tal cirurgia, as cinco cirurgias. Tenho 9 placas e 28 parafusos segurando minha cara, que ficou quase simétrica, não fossem as sobrancelhas.


Mas, na semana passada, aos 52, fui fazer botox e a médica alinhou as ditas. Assim, como se nada fosse, me vejo hoje mais simétrica do que nunca. Uma epopeia estética de quase 50 anos.


Análise da crônica:


Adorei esse texto. Você é pego desde o começo porque tem humor e as informações necessárias para fisgar o leitor. Bem escrito, a história do primo e da Carolina Dickman são engraçadas. É um texto maduro e com um olhar de um cinismo refinado. Gostei bastante.

Só quem teve o privilégio de assistir futebol desse ângulo sabe a sensação que é.


Pernas em cima dos ombros de alguém, mãos suadas, às vezes segurando a testa pra não cair com a emoção. De cavalinho, ou “cacunda”, como se fala no Nordeste.


Minha primeira vez no estádio foi no Pacaembu, em 1995, num clássico: Corinthians x Palmeiras.


O coração parecia que ia sair pela boca. A camiseta do Corinthians grudava no peito,

no calor de 33 graus. Ônibus, trem, perna doendo, sede. O estádio era muito barulhento, quente, gente demais. Eu me sentia um mosquitinho perdido ali no meio daquele monte de gente, na maioria homens. Naquela época, quase não se viam mulheres e meninas nas arquibancadas. De um lado, tudo preto e branco. E no outro, verde e branco. Bandeiras gigantes, rostos pintados.


Eu olhava pro lado e, segurando minha mãozinha, estava ele.


— Hoje você vai ver o Marcelinho Carioca, menina!


Meu avô era corinthiano roxo. Andava com uma camiseta que um dia foi branca, hoje

marrom de tanto uso, desbotada de tantas lavagens.


Era apaixonado também pelo futebol de várzea. Dizia que quase tinha montado um time em casa: sete filhos homens. As mulheres da família ficavam nos bastidores, lavando os uniformes encardidos de terra vermelha e cuidando do almoço. Aos domingos, lá estava ele, gritando na beira do campo, comprando briga pelos filhos.


Aquele dia era minha iniciação. Eu pisaria no estádio pela primeira vez, lugar onde

nenhuma mulher da família havia cruzado aquela fronteira.


Saímos sob mil recomendações da minha mãe e de vovó. Eu estava ansiosa pelo jogo, pelo passeio... mas algo me deixava ainda mais animada: subir na cacunda do meu avô.


Meu avô era um homem de pouco contato físico. Nos jogos, ele se tornava acessível,

através da cacunda. Me sentia grande, importante e, principalmente, amada. O mundo dos homens ficava pequeninho lá embaixo.


O momento chegou. Ele me ergueu nos ombros. Minhas pernas apoiadas, a camiseta encostada no corpo dele. Eu segurava ora nas mãos calejadas, ora na cabeça molhada de suor, sentindo a carapinha grudar nas minhas mãos.


O Palmeiras fez um gol primeiro. Meu avô xingou. Só não era pra repetir então eu

imitava seus gestos e reações, menos os palavrões.


Ele respirou fundo e disse, mais pra ele do que pra mim.


— Calma, fia, respira! Temos o Marcelinho, pé de anjo.


No segundo tempo, ele cobrou uma falta. O estádio silenciou antes do chute. Quando a bola entrou, explodiu. O chão tremeu. Eu tampava os ouvidos. Meu avô vibrava como se fosse menino da minha idade.


O Pé de anjo fez outro gol. Fim de jogo.


Ele me desceu dos ombros, me abraçou e sorriu.


Ele, um homem austero, quase sempre bravo, pai rígido, ali era um menino feliz.

Tempos depois, fui visitá-lo no hospital. Levei a camiseta branco-marrom, agora

amarela, e coloquei na cabeceira de sua cama. No celular, o hino do Corinthians,

baixinho, e sussurrei:


— Eternamente, dentro de nossos corações. Nesse trecho, desabei.


Foi a última vez que eu o vi.


Às vezes fecho os olhos e volto pra cima da cacunda dele, com a torcida gritando, e

penso: ele achava que eu estava ali pelo Marcelinho Carioca.


Mas eu estava ali pela cacunda dele.


E continuo aqui.


Análise da crônica:


Escolha ótima de título, deixaria apenas "cacunda". Os detalhes da relação com o avô são tão bem escritos que, apesar de ser um texto do tamanho de uma crônica, você sente o tamanho da relação e do afeto, e se envolve na narrativa e com aquele sentimento. O fato de o avô ser um homem de pouco contato se junta à informação de que a neta está colada a ele em dias de jogos, e é uma imagem muito forte e bonita. Bem escrito, e termina de forma muito lírica e emocionante.

Mais um dia do pré-primário em que eu chorava escondida no recreio, torcendo para ninguém perceber. Eu só queria o direito de sofrer em paz aquela adaptação tão cruel que é descobrir, aos quatro anos, que você vai precisar existir longe da sua mãe.

E ninguém percebeu.


Quer dizer, ninguém além da professora Célia.


Célia usava um perfume que tinha quase o mesmo cheiro das massinhas da escola, só que mais enjoado, misturado com perfume de vó e uma vaga tristeza de domingo.


Como sempre tive o olfato exagerado — uma espécie de superpoder inútil — eu sentia a presença dela metros antes de ela aparecer.


Ela se aproximou, sentou no chão ao meu lado e ficou em silêncio.


Só nós duas olhando as outras crianças correrem. Todas aparentemente adaptadas à vida. Todas parecendo ter recebido, no nascimento, um manual que o hospital esqueceu de me entregar.


Depois de um tempo, ela olhou para o meu rosto molhado e perguntou:


— Já experimentou lágrima?


Achei a pergunta estranha.


— Não. Por quê?


— Experimenta.


Deixei um ou dois pingos escorrerem até a boca.


— É salgado! — respondi, rindo pela primeira vez naquele dia. — Como você sabe?


— Porque quando eu era pequena aconteceu comigo. Uma lágrima caiu na boca sem querer e euachei curioso.


— Legal.


E foi isso.


Nenhum grande discurso sobre coragem. Nenhuma frase pronta sobre como tudo ia passar. Só uma mulher adulta dividindo comigo uma informação completamente inútil sobre lágrimas.

Desde então, vez ou outra, eu ainda deixo uma delas cair sem querer dentro da boca.

Talvez por hábito.


Talvez porque, em algum lugar da memória, ainda exista uma menina sentada no chão do recreio esperando que alguém perceba que ela está triste.


E talvez porque, às vezes, ser consolada seja apenas descobrir que a tristeza também tem gosto.



Análise da crônica:


Escolha perfeita de uma história, de um recorte da vida. É muito importante saber fazer essa curadoria e esse recorte das histórias que vivemos. O texto surpreende porque não vem nada aparentemente grandioso, mas a simplicidade é esmagadora e emocionante. Bem escrito, o fluxo das palavras e dos acontecimentos prepara para a emoção. Linda frase final. Tudo muito bom e bonito nesse texto. Ótima escolha.

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