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Eternamente, cacunda

Só quem teve o privilégio de assistir futebol desse ângulo sabe a sensação que é.


Pernas em cima dos ombros de alguém, mãos suadas, às vezes segurando a testa pra não cair com a emoção. De cavalinho, ou “cacunda”, como se fala no Nordeste.


Minha primeira vez no estádio foi no Pacaembu, em 1995, num clássico: Corinthians x Palmeiras.


O coração parecia que ia sair pela boca. A camiseta do Corinthians grudava no peito,

no calor de 33 graus. Ônibus, trem, perna doendo, sede. O estádio era muito barulhento, quente, gente demais. Eu me sentia um mosquitinho perdido ali no meio daquele monte de gente, na maioria homens. Naquela época, quase não se viam mulheres e meninas nas arquibancadas. De um lado, tudo preto e branco. E no outro, verde e branco. Bandeiras gigantes, rostos pintados.


Eu olhava pro lado e, segurando minha mãozinha, estava ele.


— Hoje você vai ver o Marcelinho Carioca, menina!


Meu avô era corinthiano roxo. Andava com uma camiseta que um dia foi branca, hoje

marrom de tanto uso, desbotada de tantas lavagens.


Era apaixonado também pelo futebol de várzea. Dizia que quase tinha montado um time em casa: sete filhos homens. As mulheres da família ficavam nos bastidores, lavando os uniformes encardidos de terra vermelha e cuidando do almoço. Aos domingos, lá estava ele, gritando na beira do campo, comprando briga pelos filhos.


Aquele dia era minha iniciação. Eu pisaria no estádio pela primeira vez, lugar onde

nenhuma mulher da família havia cruzado aquela fronteira.


Saímos sob mil recomendações da minha mãe e de vovó. Eu estava ansiosa pelo jogo, pelo passeio... mas algo me deixava ainda mais animada: subir na cacunda do meu avô.


Meu avô era um homem de pouco contato físico. Nos jogos, ele se tornava acessível,

através da cacunda. Me sentia grande, importante e, principalmente, amada. O mundo dos homens ficava pequeninho lá embaixo.


O momento chegou. Ele me ergueu nos ombros. Minhas pernas apoiadas, a camiseta encostada no corpo dele. Eu segurava ora nas mãos calejadas, ora na cabeça molhada de suor, sentindo a carapinha grudar nas minhas mãos.


O Palmeiras fez um gol primeiro. Meu avô xingou. Só não era pra repetir então eu

imitava seus gestos e reações, menos os palavrões.


Ele respirou fundo e disse, mais pra ele do que pra mim.


— Calma, fia, respira! Temos o Marcelinho, pé de anjo.


No segundo tempo, ele cobrou uma falta. O estádio silenciou antes do chute. Quando a bola entrou, explodiu. O chão tremeu. Eu tampava os ouvidos. Meu avô vibrava como se fosse menino da minha idade.


O Pé de anjo fez outro gol. Fim de jogo.


Ele me desceu dos ombros, me abraçou e sorriu.


Ele, um homem austero, quase sempre bravo, pai rígido, ali era um menino feliz.

Tempos depois, fui visitá-lo no hospital. Levei a camiseta branco-marrom, agora

amarela, e coloquei na cabeceira de sua cama. No celular, o hino do Corinthians,

baixinho, e sussurrei:


— Eternamente, dentro de nossos corações. Nesse trecho, desabei.


Foi a última vez que eu o vi.


Às vezes fecho os olhos e volto pra cima da cacunda dele, com a torcida gritando, e

penso: ele achava que eu estava ali pelo Marcelinho Carioca.


Mas eu estava ali pela cacunda dele.


E continuo aqui.


Análise da crônica:


Escolha ótima de título, deixaria apenas "cacunda". Os detalhes da relação com o avô são tão bem escritos que, apesar de ser um texto do tamanho de uma crônica, você sente o tamanho da relação e do afeto, e se envolve na narrativa e com aquele sentimento. O fato de o avô ser um homem de pouco contato se junta à informação de que a neta está colada a ele em dias de jogos, e é uma imagem muito forte e bonita. Bem escrito, e termina de forma muito lírica e emocionante.

 
 
 

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