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Anagrama

Quando é que uma mulher bissexual se dá conta de sua condição? No meu caso, demorei. Desde cedo, muito romântica, eu me lembro de estar sempre apaixonada por algum menino. Houve uma época em que tive uma amizade muito intensa com uma menina chamada Amanda. Nós estávamos na terceira ou quarta série, se não me engano. Só muitos anos depois eu percebi que aquela amizade havia sido diferente. Por que demorei tanto a cair a ficha? Simplesmente porque isso não fazia parte do meu repertório.


No início, a nossa amizade era comum. Conversávamos no recreio, brincávamos de Barbie e de Polly e até falávamos dos meninos. Ela era bem diferente de mim, a começar pelo fato de ser loira e altamente patricinha. Lembro que ela morava em uma mansão no Lago Sul, o pai dela trabalhava e a mãe cuidava da casa. Não sei do que ela gostava em mim, mas me tratava bem e queria aprender sobre meu gosto, que sempre foi mais alternativo. “Você conhece os Beatles?”, eu me gabava da cultura musical que adquiri com meus pais.


Nessa época, estava na moda a banda Rouge. Uma das poucas memórias que tenho é de nós duas aprendendo as coreografias. Sabíamos direitinho os passos de “Ragatanga". Ela tentava me ensinar a ser mais livre dançando. Eu a ajudava com as matérias da escola. Assim, começamos a frequentar a casa uma da outra e nos aproximávamos cada vez mais.


Lembro da vontade de intensificar nossa intimidade, de um jeito ingênuo e pueril. Em uma tarde na minha casa, ela teve vontade de fazer cocô e me perguntou: “você quer entrar aqui?”. Eu respondi: “nunca te vi fazer cocô, só xixi!”. Nós rimos à beça. Eu não entrei. Quando ela acabou, eu disse que o banheiro estava fedido e procuramos um perfume para disfarçar. Uma ideia divertida surgiu, e começamos a fazer poções mágicas com meus cosméticos. Misturamos perfume com xampu e uma pitada de pasta de dente. Logo os produtos do meu banheiro perderam a graça e passamos para o banheiro dos meus pais. Amanda era mais destemida. Eu tinha medo de levar bronca, mas queria agradá-la. A bagunça foi absurda. Acabamos com o creme de barbear do meu pai, experimentamos as maquiagens da minha mãe. Acho que foi aí que ela começou a torcer o nariz para essa amizade: “você não é de fazer essas coisas, filha”. Será?


A memória mais vívida que tenho é de uma festa do pijama na casa da Amanda. Na hora de dormir, ela ofereceu a própria cama para que eu deitasse. “Não precisa, eu gosto da cama de baixo”. Até hoje não sei dizer se, na verdade, ela queria dividir o colchão. Ela estava angustiada com alguma coisa. Acho que a sua menstruação tinha vindo pela primeira vez numa noite recente, e ela sentia medo, toda vez que ia dormir, de que acontecesse de novo. Pediu que eu lhe desse a mão.


Ficamos lendo a revista Capricho até tarde, com o abajur ligado. Ela dormiu primeiro, mas não soltou minha mão. Eu não estava em uma posição confortável, já que, da cama de baixo, precisava manter o braço esticado para cima. O braço dela pendia para fora da cama, me oferecendo sua mão pequena, de dedos finos. A minha também era pequena, mas com dedos mais gordinhos. A mãe dela já deixava que ela pintasse as unhas de vermelho. Eu nem fazia as unhas nessa época. Sua pele era extraordinariamente macia — ela vivia passando cremes. Eu queria muito descobrir se o rosto tinha a mesma textura, mas tive medo de acordá-la.


Não tenho certeza dessa lembrança, mas acho que toquei no seu cabelo, e ela se assustou, soltou minha mão e disse: “meu braço tá dormente”, virando para o outro lado e se afastando. Senti angústia, o coração gelado, o medo da rejeição e do abandono, o medo de não ser correspondida. Não sabia nomear nada disso. Só pensei: “ela é minha melhor amiga, eu a quero na minha vida para sempre”.


No dia seguinte, tomamos café com a família dela. Havia um clima estranho na casa,

embora todos fossem gentis. A mãe estava sempre muito arrumada, mas tinha um olhar solitário. Ela nos comprou sorvete e passamos o dia brincando na piscina.


Amanda ligou para minha mãe pedindo que eu dormisse lá outra vez. Fiquei na expectativa, mas também em dúvida. Talvez ainda estivesse assustada com o sentimento da noite anterior. Ainda bem, minha mãe foi me buscar.


Depois disso, andar de mãos dadas passou a ser um hábito. A última coisa que eu queria na escola era chamar atenção, mas, dessa vez, foi impossível evitar. A professora interrompeu a aula para dizer: “as duas aí atrás vão passar a manhã toda assim?”. Havíamos aproximado as carteiras para alcançar a mão uma da outra e, sim, estávamos assistindo à aula de mãos dadas. Eu queria sumir de vergonha. Logo eu, que era boa aluna, que não queria atrapalhar, que evitava até tirar dúvidas em sala.


Lembrei da cena de alguns anos antes, quando estudávamos anagramas e a professora escreveu no quadro: MINHOCA. “Qual palavra vocês conhecem com as mesmas sílabas?”. Eu rapidamente sussurrei para a colega ao lado: “caminho”. A menina conferiu as letras no quadro e me perguntou, um pouco irritada: “por que você não fala alto?”, enquanto a professora insistia em pedir para alguém responder. Eu olhei para a colega e dei de ombros: “eu tenho medo de acertar...”.


No ano seguinte, Amanda mudou de turma e nos afastamos. Eu tentei ir atrás, mas ela me esnobou. Talvez tivesse medo também. Eu, pelo menos, ainda não sabia do quê.



Análise da crônica:


Boa construção da amizade e da personalidade entre as duas amigas. Os exemplos de brincadeiras e gostos são o pessoal que se torna universal. A cena das mãos dadas na hora de dormir é muito bem descrita e emocionante. A descrição da diferença entre as mãos é ótima. A escolha do título e o final com CAMINHO e TER MEDO DE ACERTAR são bons. Ótima crônica.

 
 
 

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