Abril ou o cheiro da banana
- Ana Rita Drouillet de Mesquita
- May 28
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Catarina, chama-se Catarina. Disse minha mãe.
-Nem pensar, não quero que a minha filha seja estampilhada como comunista logo à nascença.
Sem nenhuma razão plausível acabei por ser Rita, como se por vontade do meu pai estivesse a escapar ao meu próprio destino.
Estávamos no ano de 82. Havia ainda uma liberdade fervilhante, as mulheres tomavam finalmente posse do que lhes foi vedado durante o breu.
Foi assim que cresci: envolta no frol da revolução.
Aos sete anos aconteceu.
Cresci num bairro social. Um presente da vida.
Era quase verão. Naquela época as crianças andavam sozinhas com o passe dos autocarros numa saqueta meio de couro meia de plástico à volta do pescoço. E eu enchia o peito ao subir os degraus da camioneta porque isto significava que já tinha crescido o suficiente para ser digna de o fazer sozinha. Rumo à escola pública do bairro. Naquela época eu já sabia que tinha muita sorte porque as roupas que usava vinham das minhas primas ricas de Lisboa. “coisas boas, de marca, quase novas” dizia a minha mãe. Muitas amigas não tinham essa sorte. Como dizia, era quase verão e a escola estava para acabar. Eu gostava muito da Marta e ela gostava de mim. Éramos amigas à séria, o suficiente para andar de mãos dadas no recreio. Fez anos naquela semana e a mãe dela convidou-me para a festa no sábado seguinte, em casa. Era nos cor-de-rosa que, como eram demasiado perto dos azuis, estavam além de uma fronteira intransponível. A minha mãe levou-me e deixou-me lá. Na casa da Marta não havia brinquedos. Lembro-me bem, porque me marcou para a vida, quando me explicou que tinha duas cuecas. À noite lavava as que tinha vestido à mão e punha a secar.
No dia seguinte comecei a dar-lhe a banana do lanche. Via-a comer com apetite a banana que a mim me dava nojo. Nojo esse que me ficou para a vida. Consigo sentir-lhe o cheiro na minha memória.
A Marta via muito mal e usava óculos grandes, quadrados. Cor-de-rosa.
Como era quase verão, o calor apertava nos pavilhões com telhado de amianto e teto falso de cortiça. O recreio era um braseiro sem sombras. Nesse dia, não sei como foi que aconteceu, mas à Marta partiram-lhe os óculos. Li-lhe o desespero nos olhos e chorei muito. Chorei tanto que a professora Alzira, não compreendendo o meu desespero, pensou que tinha sido eu.
Não fui eu, mas nessa tarde de calor eu soube, senti cá dentro, a revolta enorme de uma pobreza filha da puta. Chorei por empatia, pela tristeza de saber que o impacto daquilo na vida da minha amiga era muito superior do que se tivesse sido na minha.
E isso ficou para sempre: o calor, o cheiro da banana e a náusea da injustiça. Vincou-me a pele como uma tatuagem invisível.
A professora Alzira contou à minha mãe e ria-se quando dizia: esta menina vai para política.
Ali, com sete anos, soube cá dentro que aquela era a lenha do meu lume. A luta pela justiça e pela igualdade.
Em 2022, ano em que, pela primeira vez fui eleita, também reencontrei a Marta. É coach num ginásio em Lisboa. Não gosta de falar do passado, ela. Estas coisas da pobreza não se falam. Tornou-se linda a minha preta dos cor-de-rosa. Já não usa óculos.
No entanto, sobra-me desta história a memória e a vivência que fez de mim aquilo que sou e não sei conter. Sou o fruto de tudo aquilo que os que me ofereceram Abril me deixaram também como herança.
Não queria deixar de relembrar a importância que a minha avó teve na minha vida. Foi através dela que aprendi o valor e o preço a pagar pela emancipação.
Sou grata a todas as mulheres de Abril, e foram muitas.
Amanhã seremos muitas mais.
Rita, Catarina e todas as outras,
Setúbal, Portugal
Análise da crônica:
Texto autobiográfico que intercala lirismo, memória e ironia.
Dá exemplos de cenas e situações e isso enriquece demais a crônica. Não diz apenas o que sentiu, mas narra frases, objetos, personagens, a cena como um todo. Característica de textos muito originais.
Bem escrito, cadência boa, amarra a curiosidade até o final. Final forte, emocionante.

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