top of page

A visita

Mudei-me para uma aldeia no Algarve em busca de paz, como uma pausa da cidade, do barulho e de um relacionamento conturbado. 


Foi no segundo ou terceiro dia, que notei a casa em frente. Velha, quase em ruína, coberta de heras, com uma única janela aberta e uma cortina branca que respirava com o vento. Achei que estava abandonada.


Não estava.


Ele começou a me visitar. Sempre nos mesmos horários. De manhã e à noite. Havia nele um cheiro de coisa antiga, parada no tempo. Sentava-se no meu alpendre como se já me conhecesse, recusava tudo o que eu oferecia e falava da vida, da guerra, da família que o esqueceu, do mundo que já não prestava. 


Eu respondia. Não sei por quê.


Falava de Casablanca como quem fala da própria vida. De escolhas, perdas, sacrifícios. Mas, para mim, ele era mais como Umberto D... uma solidão tão densa que parecia ocupar o espaço inteiro ao redor.


Um dia perguntei seu aniversário. — Já não me lembro. Disse ele, com a mesma calma de quem esquece o que comeu no dia anterior. A forma como ele falou me deu um calafrio, como se o tempo já não tivesse mais importância para ele, como se a passagem dos anos não lhe dissesse respeito.


Até que uma noite eu não quis recebê-lo.


E foi nessa noite, que algo em mim apertou. Falta de ar, coração disparado, pensamentos que não cabiam no corpo. Sentei-me no chão, abraçando os joelhos, balançando de um lado para o outro, como se estivesse num barco a mar aberto, tentando não virar. Isso me acalma.


Passei a evitá-lo. Apagava as luzes, fingia não estar. Mas ele sempre voltava. 


Até o dia da borboleta.


Ela pousou no ombro dele — leve, branca — e, pela primeira vez, ele sorriu. Um sorriso pequeno, quase esquecido. E então… não voltou mais.

Fui ao café da esquina perguntar por ele.


— Não vive ninguém ali há anos — disseram. — O homem que morava lá se enforcou.

Saí andando até o mar, com uma sensação estranha, como se algo tivesse se deslocado dentro de mim.


Ele não voltou mais.


Mas às vezes eu o vejo.


Na janela.


Me olhando.


E eu aceno.


Porque agora sei: certas visitas não vêm de fora.


Elas encontram a porta aberta dentro da gente.


Análise da crônica:

Texto que prende a atenção não pelo suspense, mas porque é bem escrito e tem uma doçura, uma cadência de mar, isso me agrada. Uma boa “entrega” de informações a cada parágrafo. A gente meio que já sabe o final (ponto negativo), mas o texto está bem escrito.

Eu terminaria o texto aqui:


Ele não voltou mais.


Mas às vezes eu o vejo.


Na janela.


Me olhando.


E eu aceno.

 
 
 

Recent Posts

See All
Sem título

Quando fiz 9 anos, meu pai me levou a um ortodontista para ver meus dentes que tinham nascido uns sobre os outros, porque, dizia minha mãe, eu nasci quase sem boca. Ali, descobri que minha cara era as

 
 
 
Eternamente, cacunda

Só quem teve o privilégio de assistir futebol desse ângulo sabe a sensação que é. Pernas em cima dos ombros de alguém, mãos suadas, às vezes segurando a testa pra não cair com a emoção. De cavalinho,

 
 
 
O gosto das lágrimas

Mais um dia do pré-primário em que eu chorava escondida no recreio, torcendo para ninguém perceber. Eu só queria o direito de sofrer em paz aquela adaptação tão cruel que é descobrir, aos quatro anos,

 
 
 

Comments


bottom of page