top of page

O boné 

Mar 30
2 min read

Minha mãe foi minha principal leitora durante meus primeiros 26 anos de vida. Adorava as histórias que eu contava e escrevia. Celebrava cada conquista. Das notas altas na escola, ao primeiro contrato de trabalho. A única conquista não muito celebrada, foi minha mudança para Barcelona. Um sonho que eu cultivava há anos, mas que me levou para longe dela.  

Em dezembro de 2002, a história em Barcelona precisou ser interrompida.  Minha mãe estava morrendo. Do aeroporto, fui direto para o hospital. E desde o  desembarque, foram 19 dias para a despedida definitiva. Na última manhã,  meu irmão, que havia passado a noite com ela, chegou bem cedo em casa, com os olhos arregalados.  


_ Acho que vai ser hoje.  


Rose, sua melhor amiga, tinha permanecido no hospital, aguardando por mim e  pelo meu pai. Ao chegarmos no quarto, logo percebemos que a respiração da  minha mãe estava diferente, com intervalos prolongados. Eu, meu pai e Rose não tirávamos os olhos dela. Ficamos assim por algumas horas, em um tenso estado de vigília.  


Em certo momento, não sei como, comecei a contar uma história cômica da época da adolescência. De quando estudava em um colégio católico, odiava  meu cabelo e estava na fase metaleira. Eu usava sempre um boné da minha banda favorita. Um dia, Irmã Marta, a diretora, chegou na sala de aula e me viu  com aquele boné preto e encardido. 


_ Tire isso da cabeça, imediatamente!  


Eu então saí da minha carteira, bem no fundo da sala e fui de joelhos até ela,  suplicando para seguir com meu santo boné, protetor dos meus cabelos  rebeldes. Ela se segurou para não rir, mandou eu voltar para a carteira e disse  que seria a última vez! 


Depois que eu contei essa história, conseguimos rir um pouco. E foi neste  momento que minha mãe começou a parar de respirar. Como um passarinho.  Eu nunca tinha visto um passarinho morrer. Na verdade, eu nunca tinha visto  nenhum ser vivo deixar de ser vivo. Foi a primeira vez que chorei vomitando.  


Algumas horas depois, já no seu velório, fui tentar dormir um pouco no  quartinho ao lado do salão fúnebre. E tive um sonho. Estava no mesmo salão.  Igualzinho. Mesma luz, mesma decoração. O caixão lá na frente, com minha  mãe dentro. De repente, ela se levantou do caixão e disse rindo: 


_ Minha filha! Você ainda não tinha me contado essa história!


Análise da crônica:


Este texto é dos melhores que recebi até agora. "Minha mãe estava morrendo” é uma informação que chega rapidamente, exatamente na hora que precisa chegar. Bastou um parágrafo pra mostrar o amor entre mãe e filha, com todos os exemplos necessários, pra gente entender sobre essa relação e já podemos ir direto pra frase mais porrada e que vai nos fazer grudar na crônica até o fim. O humor entra o tempo todo na hora certa, nem demais, nem exagerado, nem na hora errada. Acerta o tempo todo o tom do humor.


O final é lindíssimo. Aquela risada com lágrimas que a gente dá ao ler um texto escrito com dor, talento literário e vontade de seguir com a vida.


Lindo!!! O título é excelente porque mostra essa simplicidade na qual cabe tudo quando o escritor é bom.

Recent Posts

See All
Memórias de um veterano aposentado pela tecnologia

O que um veterano de guerra poderia contar que ainda fosse útil aos jovens de hoje? Já não tenho a energia nem o vigor de antes. Tenho apenas um apanhado de histórias que provavelmente soarão sem graç

 
 
 
Fuga Furada

Arriei as calças. Ela era maravilhosa e sentava com sede de prazer. Meu celular tocou. Pausei o vídeo e limpei a mão. Lembrei que tinha marcado de encontrar meu irmão. Retornei a ligação e avisei que

 
 
 
Chinelos

Entre os vestígios das mortes do meu irmão e do meu pai, estão dois pés de chinelos. No caso do meu irmão, guardo o relato do vigia de uma obra próxima, aparentemente a única testemunha do seu assassi

 
 
 

Comments


bottom of page