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A outra cena

A primeira imagem foi a da piscina da casa do meu ex-marido, que minha irmã estava aproveitando enquanto eu trabalhava. Ver os dois se divertindo em roupas de banho coloridas me torturava. A traição era dupla, ou tripla, estarem juntos e a curtição (essa não era a praia deles, e sim a minha!). Estariam, então, curtindo com a minha cara?


Andei como se estivesse com peso nos pés, sob um sol que tirava minhas forças, quando encontrei João Carlos. Pingando de suor e totalmente sem dignidade, pensei que ele não precisava saber que eu ainda sofria com a perimenopausa. Como o estrago já estava feito e meu cabelo colava nas costas, aquiesci.


Ao perguntar por que ele preferia minha irmã a mim, ele, com a naturalidade típica dos homens, da qual era mestre, respondeu:


— Ela se alimenta bem, e isso me ajuda.


É verdade: ele sempre foi um terapeuta zenmeubem, e eu sempre fui uma bomba prestes a explodir, comendo lasanha congelada, bebendo cerveja gelada e com um belo estresse acumulado.


— Mas sou mais divertida que ela — apelei.


O homem permaneceu em silêncio.


Fui embora com a dor mais profunda que já senti: rejeição, traição e comparação, esta última o “must” dos tempos infantis, nos quais minha mãe utilizava os termos “a maior” e “a menor” para se referir a mim e a minha irmã. Eu era a menor, obviamente.


Todas essas memórias, há tanto tempo guardadas, retornavam agora, e eu não sabia o que fazer com elas, a não ser sentir doer.


Foi quando acordei e, ainda angustiada, gritei alto:


— Mas de onde foi que tirei essa piscina, logo do cara mais muquirana que já conheci?

Dei uma risada antes de me levantar da cama e varri o reprimido para debaixo dela.


Análise da crônica:

Uma crônica pequena com uma força enorme.


Uso perfeito de diálogos. Curtos, mas dizem tudo. Estranhos na medida certa.


A imagem da piscina que abre e encerra, na primeira deixando o texto tão iluminado, na segunda sombrio e irônico. perfeito.


Carga de ironia e de raiva na medida certa. Vingança é sempre bom de escrever e de ler.


Eu terminaria o texto aqui: “Mas de onde foi que tirei essa piscina, logo do cara mais muquirana que já conheci?"

 
 
 

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