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A esperança da desigualdade


Aos dezoito anos, eu ainda acreditava em meritocracia. Era jovem. Acontece.


A vaga era de estagiária em uma empresa grande, instalada numa cidade pequena demais, onde todo mundo se conhece, principalmente quem importa. Passei por todas as etapas do processo seletivo com destaque. Nas dinâmicas em grupo, fui elogiada. Trabalhei bem, falei bem, ouvi melhor ainda. Passei na frente de vários candidatos. Quando o funil apertou e restamos apenas duas, uma da turma 1 e outra da turma dois, por ter muitos candidatos, cometi o erro clássico da juventude: achei que o processo seletivo tinha terminado.


Havia, porém, um detalhe técnico: eu não tinha roupa para entrevista. Eu sabia dos códigos de vestimenta, pedi ajuda a minha mãe. Fomos ao centro da cidade, esse espaço onde sonhos são parcelados em suaves prestações. Ela não tinha dinheiro nem para o básico, mas comprou um escarpim de bico fino, item obrigatório para quem pretende parecer competente em ambientes corporativos. Parcelou em vezes suficientes para garantir que o sapato tivesse vida útil maior que a vaga.


No dia seguinte, peguei o ônibus rumo à zona industrial, esse lugar onde empresas prosperam e ônibus passam raramente. Cheguei cedo. Muito cedo. Afinal, fui educada para acreditar que pontualidade gera respeito. Gera, no máximo, tempo de espera.


Fui orientada pela portaria a aguardar na recepção, onde uma televisão passava o jornal da tarde no horário próximo ao almoço. Aguardei. O relógio avançou com calma institucional. Comecei a desconfiar que eu algo poderia estar errado, a impaciência começou a tomar conta de mim, tudo começou ser irrelevante.


Então o carro estacionou.


Novo, lustroso, seguro de si. Dele desceu a outra candidata, bem-vestida, acompanhada do pai. Chegou horas depois do horário marcado e foi recebida com a naturalidade de quem chega no horário certo porque o horário, claramente, era flexível para alguns.


Cumprimentos calorosos. Sorrisos antigos. Reconhecimentos mútuos. Descobri ali que o processo seletivo não avaliava competências, mas genealogia.


Entramos para a entrevista. Meu nervosismo foi substituído por leitura de ambiente. Não adiantava mais nada. Meu desempenho exemplar virou rodapé. A vaga tinha endereço conhecido.


Saí da empresa sem emprego, e com um sentimento muito brasileiro: culpa.


Culpa por não ter pai para levar de carro. Culpa por não ter família conhecida. Culpa por não ter aprendido antes a fingir segurança em ambientes que já decidiram por você. Por meses, carreguei a sensação de que eu falhei. Que, de alguma forma, deveria ter me portado melhor, falado com mais firmeza, ocupado um espaço que nunca foi oferecido.


Anos depois, sinto que de certa forma isso deixou marcas em mim, marca educada, como quem pergunta se não foi mesmo falta de preparo. Demorei a entender que não se trata de preparo quando o jogo começa desigual. Que não existe postura segura capaz de compensar a ausência de sobrenome.


O escarpim seguiu sendo pago por meses. Um investimento educativo. Não me levou ao estágio, mas me ensinou cedo que, em cidades pequenas, o futuro costuma ser herdado e que a culpa é o jeito mais eficiente de fazer o excluído acreditar que a porta estava aberta.


Análise da crônica:


Texto muito pessoal, escrito com indignação, mas também maturidade, beleza, riqueza de detalhes e uso da ironia nas horas certas. Bem escrito demais, com o tempo de cada oração entregando uma cadência de cronista profissional de jornal. 

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