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Sem título

Lembro meu primeiro jaleco. Ainda na faculdade, corte reto, porque sempre achei brega frufru demais. Bordei meu nome em lilás, minha cor favorita, por ser a cor do meu orixá de cabeça. Ops, ninguém fala disso na faculdade de Medicina. Minha cor favorita, apenas. Minha avó passava com esmero e aquele símbolo branco era motivo de orgulho familiar. Depois que me formei, o bordado ganhou as três letrinhas mágicas - “Dra.” Com essas, eu nunca me vesti. Para mim, doutor é um título de perpetuação da hierarquização social das pessoas baseada na sua ocupação. Quantos médicos e médicas lavam e passam seu próprio falo, digo, jaleco? Quantas mãos pretas e pardas cuidam da fantasia branca de pessoas brancas ganhando dinheiro e status social por se vestirem de jaleco? 


Eu me vestia de jaleco sem me vestir de doutora e, com isso, sempre me senti um pouco menos médica. Me faltava aquele orgulho e soberba por exercer a profissão mais difícil de todas, segundo o imaginário conservador. 


Quando engravidei, me vesti de barriga. E peitos. E aqueles jalecos lindos e acinturados viraram mais casaca e menos envelope. Eu os usava aberto, porque não vestiam mais o corpo que eu era. 


Depois de parir, minhas roupas ficaram estranhas. Era difícil conter peitos lactantes em camisas sociais. Equilibrar pernas roliças de edema em cima de saltos. Domar cabelos secos e quebradiços em qualquer penteado aceito para a minha posição. Fui honesta comigo e fiz concessões estéticas. Mas as pessoas que eu atendia nada sabiam sobre (o meu) puerpério e não fizeram tantas concessões. Nunca me esqueço dos olhares vestidos de desconfiança para uma sapatilha, ou um vestidinho mais coloquial. Ou aquela calça linda, mas ainda apertada. Me escondia dentro do jaleco, porque voltou a fechar. Mas a conta social não fechava mais. A fantasia não era mais motivo de orgulho, mas de sofrimento. E, principalmente, de alienação da pessoa que, agora, eu era. Punha o jaleco como uma capa, não de super-heroína que salvaria meus doentes dos seus suplícios neurológicos. Era algo mais para papel-filme, embalando de sufoco minhas angústias, desconfortos, medos e meu leite. 


Com o tempo, percebi que não conseguia me vestir mais de médica. 


Já se foram quatro anos. E só esse mês encaixotei meus livros de neurologia expostos na estante. Despi meus olhos da cobrança das prateleiras, que vez e outra me encaravam questionando “quando vc volta, Dra.” 


Eu não sei, time. Talvez eu não volte, por nunca ter chegado completamente.


Análise da crônica:


Texto bem escrito do começo ao fim. Primeiro parágrafo forte e já nos amarra pelo interesse em saber mais. Falta título. Todo o lance de “se vestir de” é muito interessante. Texto com humor mais questões sociais mais indagações existenciais, todos esses "convivendo” em harmonia (difícil de conseguir). Muitos detalhes que enriquecem a narrativa, sobretudo por serem detalhes bem pessoais e não clichês.


Final forte do tipo que nos deixa com o texto dentro da gente por algumas horas. 

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