top of page

Minha mãe tentou endireitar a Lady Gaga

"Ela é de direita!" Esta frase ecoa na minha cabeça há semanas. Minha mãe acredita que, por ter usado uma roupa verde e amarela em seu show em Copacabana, ocorrido em maio de 2025, Lady Gaga seja politicamente alinhada com a ideologia de direita.


Estava dirigindo, mas tentei defender a Mother Monster contra o insulto desnecessário e explicar que ela estava devolvendo as cores da bandeira para os brasileiros, direito de TODOS nós, não somente dos bolsonaristas/fascistas que roubaram esse símbolo.


Argumentei que a cantora é um ícone LGBTQIAPN+, mas minha mãe soltou um resmungo que não consegui decifrar. Soube que tinha perdido mais uma batalha.


Eu sou uma mulher de 38 anos, independente, mas ainda me sinto como a jovem de 20 e poucos com crises de ansiedade por não conseguir falar em público. A verdade é que pareço uma criancinha sem vocabulário suficientemente desenvolvido nem traquejo social diante da senhora de 68. Aquela figura frágil, em início de quimioterapia, triste e perdida ainda tem um poder sobre mim que eu não gosto de admitir. Sinto vergonha.


Confesso que quando tentei defender Gaga, estava tentando me defender de todas as vezes em que minha mãe e eu travamos discussões sérias, que culminaram com a minha expulsão de casa. Estava tentando me redimir comigo mesma e falar para ela como a mulher pansexual e progressista que sou, diferente da filha que ela acha ou finge que tem.


O problema é que minha resposta ficou nada parecida com o início do meu texto. Gaguejei, perdi o fôlego algumas vezes, ouvi uns chiados dentro da minha cabeça. Eu havia tentado articular uma bela resposta, mas falhei miseravelmente pela milésima vez.


Não é fácil admitir que a esta altura da vida eu sigo pequena diante da minha mãe, que ela tem um poder sobre mim do qual não consigo me desfazer e que me tira a capacidade de me comunicar.


Muito mais do que Lady Gaga, a cena que vivi com minha mãe fala de sentimento, pertencimento e mentiras. Não é fácil transbordar o padrão, ser tardia, se sentir inadequada a vida inteira. Quando alguém tenta roubar o “alívio” conquistado à força, é violento.


Análise da crônica:

O melhor desse texto é a ideia, o título. O desenvolvimento em torno dele também é divertido e original. Não tem como ler esse título e esse primeiro parágrafo e não ir até o final. 


A versão maior era melhor, é bom ficar atenta pra não tirar o melhor de um texto na hora de reduzi-lo, mas essa versão continua interessante, bem escrita e divertida.

 
 
 

Recent Posts

See All
Sem título

Quando fiz 9 anos, meu pai me levou a um ortodontista para ver meus dentes que tinham nascido uns sobre os outros, porque, dizia minha mãe, eu nasci quase sem boca. Ali, descobri que minha cara era as

 
 
 
Eternamente, cacunda

Só quem teve o privilégio de assistir futebol desse ângulo sabe a sensação que é. Pernas em cima dos ombros de alguém, mãos suadas, às vezes segurando a testa pra não cair com a emoção. De cavalinho,

 
 
 
O gosto das lágrimas

Mais um dia do pré-primário em que eu chorava escondida no recreio, torcendo para ninguém perceber. Eu só queria o direito de sofrer em paz aquela adaptação tão cruel que é descobrir, aos quatro anos,

 
 
 

Comments


bottom of page